Confessa, vai



Acordei assustada com o despertador tocando às seis da manhã de uma quinta-feira cinzenta e a chuva não parava de cair lá fora. Ele tinha que me acordar logo agora? Eu estava tão perto de você e sua boca já estava quase tocando a minha. Droga, não podia me dar só mais cinco minutinhos? E não é só para descansar o corpo só por um momento e sim sentir seu beijo só mais uma vez.

Nos meus sonhos, você passou de coadjuvante para o mocinho de jaqueta de couro e cabelos com gel. Na vida real também. Pena que você não sabe disso. Ou até sabe, eu acho, mas prefere fugir de mim. Acho que você tem é medo, sabe? Medo de acabar cedendo quando eu insistir para você ficar. Você ainda lembra do beijo que me deu há trinta e poucos dias atrás? Ou sua memória é seletiva? Espero que não, porque eu não consigo esquecer. É um erro meu, eu sei, mas como pode ser um erro se meu coração dispara todas as vezes que eu te vejo?

Eu juro que tentei te afastar da mente e da vida quando disse que não queria mais, quando insistiu em me dizer que isso não iria funcionar, mas eu cometo tantos erros diariamente que não me importei em errar de novo. Você não pode entrar na minha vida sem pedir licença, agir como se tivesse interessado, tocar seus lábios no meu e ir embora. E tudo que você me disse?

“Quero de novo. Quero muito mais do que foi hoje.” É, eu ainda me lembro dessas últimas palavras que disse antes de juntar as malas e pegar o primeiro voo. O que mudou dentro de você? É medo, não é? Eu fiquei sabendo de como foi seu último relacionamento. Me desculpa por ele não ter dado certo como você esperou. Suas fichas apostadas não foram atoa, pode ter certeza. Você ainda vai receber o reembolso de cada uma delas. Só não tenha medo e nem fuja como você fez comigo.

Eu sei que você só está tentando se auto proteger e que sente-se confortável com essa distância que habita entre nós, mas eu também sei como sente-se sobre “nós”. Você gostou, você quer mais, confessa. Você ainda pensa em mim antes de dormir, você construiu esses muros mas está bem em cima dele conferindo se pode saltar ou não, mas você luta contra essa alternativa todo dia.

Não pense que estou sendo convencida ou que apenas quero acreditar que isso tudo seja verdade para doer um pouco menos. Seus amigos me contaram. Não brigue com eles, ok? Só estavam preocupados, porque perceberam o tanto que queria e fugiu. Eles disseram o que você comentou sobre aquela tarde. “Foi magnífico. Foi mágico. Foi melhor do que eu imaginei. Não vejo a hora de vê-la de novo, cara.” 

Você ainda lembra. Ainda sente aquele frio na barriga antes descer do ônibus e ir caminhando para casa, lembrando que passamos por cada calçada. Sente falta das minhas mãos no seu peito na hora que fui te beijar. Sente meu cheiro na sua blusa de frio. Sente meus braços ao redor do seu pescoço. Sente meu corpo colado no seu. E eu ainda sinto sua mão no meu cabelo, seu aperto na minha cintura, seu beijo rápido e molhado, seu beijo singelo na minha cabeça. Se eu soubesse que seria a primeira e última vez, não teria pedido para parar.


Vai, confessa logo. Salta desse muro. Eu te seguro aqui em baixo e você não vai se machucar. Sacudo a sua poeira, seguro firme sua mão e a gente sai andando por aí. Eu sei do seu espírito aventureiro, podemos pegar o primeiro voo para bem longe daqui. Mas vamos juntos, por favor. Juntinho assim é tão bom. A gente ainda pode ser muito feliz. Eu posso te dar todas aquelas fichas apostadas, mas confessa. 


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