A imperfeição que eu não me importo mais



 

Por você eu parei de conferir a porta antes de dormir. Ela está aberta. Entre quando quiser. Volte quando achar melhor. Não vou mais desligar e ligar a luz três vezes para me certificar que terei um sono digno de princesa e descanso. Uma vez já basta e meu sono só ficaria bom se você estivesse dormindo ao meu lado mesmo. Não vou mais te prender antes de ir embora, adiando sua saída, contando seus passos até a porta e não deixando que sejam pares. Ou ímpares. Isso não importa mais. 

Não vou te dar cinco longos beijos antes de dormir, pode ser dez? Nem separar sua comida no prato por cores, mas você precisa saber que a primeira coisa que eu pensei quando te vi foi nada. É. Nada. Foi a primeira vez em muito tempo que minha mente parou de funcionar por um segundo e a voz calou-se dentro de mim. A única coisa que eu reparava era o canto inferior da sua boca e como eu queira estar próximo a ele. 

Eu sei que você notou quão diferente eu era das outras garotas e não estou falando fisicamente. Você sabia desde o nosso primeiro encontro que havia alguma coisa questionável em mim. O fato de ter chegado já arrumando seu banquinho torto pode ter te assustado. Eu era o posto de toda sua bagunça e você adorou isso. Confessa. Só que hoje parece que não mais. Você acha que sou estranha e tem se irritado mais facilmente quando me vê perdida dentro dos meus próprios pensamentos. 

O meu jeito de andar, devagar e sem pisar nas constantes linhas da calçada te atrasam. Meu jeito super reto de segurar sua mão com todos os dedos no caimento perfeito te deixa desconfortável e os lençóis da minha cama são estendidos demais para você conseguir dormir. Não gosta daqueles eternos cinco beijos antes de dormir e se irrita com o excesso de coisas que eu tenho que fazer em ordem, por partes. Concordou comigo quando teimosamente queria acreditar que isso tudo era um erro. Hoje eu percebo, como pode ser um erro se eu não preciso mais seguir nenhum desses rituais? 

Nenhuma outra mulher irá fazer tudo tão certo como eu tentei fazer por você. Elas não se importariam se os beijos foram longos o suficiente para atingir três minutos e trinta segundos. Sua mãe iria reclamar da sua cama que não está estendida e da poeira que acumula em camadas sob sua mesinha de canto. 

Depois desses dias separados, eu percebi o tanto que você pode me fazer falta. Meu tempo ficou desocupado já que não há mais motivos para conferir absolutamente nada antes de dormir. Eu ando apressada pela rua, olhando pela vitrine da nossa cafeteria preferida com a falsa esperança de que você estará lá tomando seu café descafeinado. Quando você se foi, eu perdi o chão e não precisei mais andar sem tocar nas suas linhas de rejunte. 

Você é a primeira coisa mais linda que eu fiquei presa e não me importei com isso. As luzes estão acesas, a porta está aberta... Volta?

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