Quando um sentimento é personificado


Às vezes eu imagino os sentimentos como pessoas. Hoje estou aqui e ela está sentada na minha frente com o olhar colado em mim. Ela tem olhos azuis como o mar, um mar de lágrimas. Tento me distrair, tento não prestar atenção em como seus olhos me seguem, como sua atenção está em mim, focada em cada um dos meus movimentos como se procurasse o que a afeta em cada ação minha. Sinto vontade de gritar “Droga, não está aqui! Você não vê?” Seus olhos azuis são tristes. Existem muitas linhas de expressões em seu rosto, como se viesse sofrendo por anos, como se chorasse todos os dias. Sua postura é rígida, tensa, como se carregasse o peso do mundo em seus ombros e a qualquer momento esse peso fosse desabar em cima do seu pequeno corpo caso ela relaxasse. Ela segura suas próprias mãos e as movimenta uma sob a outra como se tentasse aquece-las, como se tentasse sentir outra vez um carinho que já não está mais ali, como se houvesse um vazio entre suas mãos que não pode ser preenchido, mas ela continua tentando. 

Ela sorri, mas é um sorriso temeroso, quase como se sentisse dor ao fazê-lo, como se não pudesse ver uma só razão para dá-lo e ao abri-lo se lembrasse de algo que parte seu coração de tal forma que lágrimas escorrem por suas bochechas pálidas. Vez ou outra ela se inclina para frente, abaixa os olhos e prende a respiração, reconheço esse gesto, já o pratiquei diversas vezes. Faço isso quando tento controlar um impulso involuntário de recordar, porque essa recordação machuca tanto que meu corpo por si só a rejeita, mas isso só faz com que eu engula um choro desesperado, a recordação resiste, se instala no meu peito e não me deixa conte-la. Será que é isso que ela sente também? Percebo que sua forma vacila a cada vez que me demoro em sua olhar, como se por menos de um segundo eu pudesse ver outra pessoa sentada em seu lugar, como se seus olhos azuis assumissem um particular tom de castanho. Olhos castanhos. Só então percebo o que já era óbvio. Sei exatamente quem está sentada de frente pra mim. Percebo então que é como se fosse um espelho. As mãos ansiando outro par de mãos são iguais as minhas sentindo falta das suas mãos, o sorriso triste é o mesmo sorriso estampado no meu rosto por não te ter como motivo. Ela reflete uma parte minha. Ela reflete o que eu sinto hoje. O nome dela é Saudade. 

*fonte da imagem

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