Como não lembrar de esquecer?


Eu respiro devagar e tento contar nos dedos quanto tempo o ar demora para sair completamente dos meus pulmões. Só conto até dois antes de ter que inspirar novamente. 

Quando minha psicóloga disse que a falta de ar durante uma crise de ansiedade acontecia porque eu inspirava mais do que expirava, pensei que fosse ser mais fácil de controlar sem cogitar a possibilidade de estar sofrendo de insuficiência cardiorrespiratória ou que meus pulmões estavam se enchendo de fluídos ou que eu sofria de bronco espasmos, e que morreria a qualquer momento. Mas não é. Agora eu só não consigo respirar, sei o motivo, mas ainda não controlo. 

Eu queria um botão de pausa bem dentro do meu cérebro. Na verdade, eu queria um monte de botões: pausar, voltar, apagar. Principalmente o de apagar. 

Será que uma crise de ansiedade pelo que já acabou ainda sim é uma crise de ansiedade? 

Eu queria que não fosse por você. Queria ser aquele tipo de pessoa profunda que tem crise de ansiedade por não suportar a existência em um mundo vil e mesquinho ou por sentir sufocar ao perceber a sua insignificância diante do universo. Eu queria que meu coração acelerado não parecesse chamar seu nome a cada batida martelante, como se tivesse esquecido como pulsar normalmente desde que você foi embora levando o seu que me compassava. Queria que minhas mãos inquietas não tremulassem como se te buscassem incansavelmente, não tateassem o lugar que você costumava dormir na minha cama esperando encontrar seu corpo quente ou o espaço vazio ao meu lado quando caminho na rua procurando suas mãos gentis. Só não desejo mais do que o silêncio da minha mente, do que paz pros meus pensamentos. 

Minhas lembranças caminham incansavelmente por aqueles dias. Revivendo, relembrando e torturando o presente por não ser tão bom quanto o passado, apavorando o futuro. Eu não me lembro do que almocei aquele dia, mas posso sentir o gosto da sua boca tocando a minha pela primeira vez. Eu não sei dizer o caminho que fiz para chegar até lá, mas posso descrever cada uma das curvas que o seu sorriso carrega. Eu não me lembro de qual música tocava, mas repasso incansavelmente cada uma das nossas conversas e me arrepio com o timbre da sua voz dizendo o que eu gostei de ouvir. 

Lembrar. 

O dicionário define lembrar como trazer a memória. Trazer pressupõe que não estava aqui, mas você está aqui o tempo inteiro. Ainda é lembrar quando eu não consigo esquecer? 

Eu minto. Há dias que acordo crendo que te esqueci, até perceber que só esse pensamento já é a prova de que ainda não te deixei ir. 

Eu sou casa e ao mesmo tempo sou moradora. Você é aquele móvel que eu sei que não uso, mas que faz tanto sentido junto do resto da decoração que eu simplesmente não consigo me desfazer. Eu queria que você fosse aquele par de sapatos esquecidos embaixo da cama e que eu só lembrarei quando o vir ao procurar a tarraxinha do meu brinco. Aquele par de sapatos que me traz ótimas lembranças de quando eu dançava com ele por aí, mas que já não me serve mais e não há sentido algum em guarda-lo. Quero te dar embora como dou um par de sapatos que eu amei mas que não cabem mais nos meus pés. 

Quero manter minha casa limpa e organizada para que quando o vento da ansiedade bata, flua para fora das janelas sem se enroscar nas cortinas e derrubar os quadros da parede. 

Quero esquecer você sem me lembrar que esqueci.

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