Existir em um mundo contrario



 Eu nasci num mundo de meninos.

Eu não entendia porque não podia jogar bola com meus amigos na rua, porque implicavam com meu jeito de sentar, porque eu só ganhava presentes cor de rosa quando minha cor favorita sempre foi azul, porque eu tinha que dormir em um quarto separado dos meus primos e irmão nas viagens de família, porque eu fazia ballet na escola enquanto os meninos faziam judô, porque achavam estranho que eu tivesse o estojo do pokémon e a mala dos power rangers. Eu não via a diferença que todos me enfiavam goela abaixo.

Eu cresci num mundo de garotos.

Eu não gostava de pentear meu cabelo, eu odiei ter que começar a usar sutiã, eu sentia vergonha das mudanças que começavam a aparecer no meu corpo e tudo que eu deveria fazer para escondê-las ou disfarça-las. Eu sofri quando meus colegas me achavam que eu era lésbica porque eu não agia como as outras meninas da minha idade. Eu não gostava de usar anéis, pulseiras, colheres, presilhas, saias ou vestidos. Eu tive que aprender a esconder quem eu era pra ser o que uma moça tem que ser.
Eu aprendi a amar num mundo de rapazes.

Eu precisava respeitar meus namorados, mesmo que eles não me respeitassem. Eu deveria não tentar chamar tanta atenção para que eles não tivessem que me disputar com ninguém. Meu corpo era um prêmio que eles ganhavam enquanto eu me desdobrava para encantá-los sem parecer vulgar demais. Eu não podia ser interessante para outros garotos, portanto deveria evitar todo e qualquer contato com o sexo oposto enquanto estivesse em um relacionamento. Eu era louca e doente quando ficava em casa sozinha nas noites de sexta temendo o que as vagabundas sem classe estariam fazendo com meus pobres namorados inocentes nas baladas. Eu fui ensinada a enxergar outras iguais a mim como ameaças e eternas competidoras pelo olhar masculino. Eu deveria cuidar, zelar e amar sem sufocar. Eu precisava aprender a respeitar espaços sem nem ao menos ter a chance de ter o meu. Eles foram os vírus que adoeciam minha mente. Eles eram as únicas curas possíveis.

Eu vivo num mundo de homens.

Eu já não sei mais do que eu realmente gosto e do que fui condicionada a gostar. Eu preciso ter medo ao sair de casa de noite e escolher minha roupa cuidadosamente para diminuir as chances de um homem achar que tem direito de violar o meu corpo, eu tenho que ouvir que meu marido terá que ser rico já que eu não sei cuidar da casa. Eu tento achar o meio termo entre quem eu sempre fui e quem eu tive que aprender a ser. Eu ainda não sento “que nem moça”, falo um monte de palavrões, bebo com meus amigos no bar, gosto de futebol, ando mais com homens do que com mulheres. Eu aprendi a gostar de maquiagem, leio romances água com açúcar, gosto de anéis, pulseiras e colares e fiz as pazes com o rosa. Eu tive que entender sozinha que gostar do que é considerado “coisa de menino” não tinha a ver com a minha sexualidade, que ser mulher é muito mais sobre fazer minhas próprias escolhas do que pintar as unhas de vermelho e aprender a cozinhar.

Eu quero, um dia, poder criar uma mulher.

Quero ensiná-la que tá tudo bem comer chocolate, é melhor um corpo feliz do que ser infeliz para seguir um padrão. Quero que ela aprenda desde bem cedo que ela pode gostar do que faz com que ela sorria muito, a única a quem ela precisa agradar é ela mesma. Vou mostrar que o corpo dela merece respeito estando de calça ou minissaia e ninguém tem direito de tirar nada dela sem que ela permita. Eu vou ensina-la a fazer um escândalo toda vez que se sentir lesada por ser quem ela ama ser, que ela deve amar quem o coração dela escolher.Vou ouvi-la porque a voz dela importa.Vou aprecia-la para que ela saiba que tem valor e que esse valor se dá pelo fato dela ser um ser humano.  
Eu quero, um dia, criar uma mulher num mundo de seres humanos. 


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Esse post faz parte da nossa semana especial do dia das mulheres. Para ler os outros, clique aqui.

*Fonte da imagem 

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