Carta que não tive coragem de enviar


Hoje era o aniversário de Cadu. Mari não conseguia pensar em outra coisa. Acordou e tentou nem olhar pro calendário na mesa do trabalho e até ocultou a data no descanso de tela do celular. Mas foi em vão. Aquele coro meio louco "Controlo o calendário sem utilizar as mãos" que ela sempre achou sem nexo, de repente fez sentido. Parecia que tudo ao redor lembrava o sorriso e aquele belo par de olhos dele. 

A ordem aleatória do Spotify tocava The Strokes - banda preferida de Cadu. Nas lojas americanas, seu chocolate favorito estava em promoção. Era anúncio de Kit Kat pra todo lado! Assim como tava escrito na testa de Mari que ela ainda não tinha o esquecido. Afinal, como a gente esquece o amor da vida?

O dia praticamente chegou ao fim. Mari foi do trabalho pra faculdade (apesar de mal ter conseguido se concentrar na aula) e estava exausta. Era sexta feira e o cansaço da semana pesou, mas ainda assim Cadu não saía dos seus pensamentos. E apesar de tudo, pensar nele era sempre sinônimo de leveza. Resolveu tomar um banho frio, e como de costume levou o celular pro banheiro pra ouvir alguma música enquanto isso. Estava sem internet em casa e nessa altura do dia os dados já haviam ido embora. Foi o jeito colocar a playlist da sua biblioteca no aleatório, aumentar o volume ao máximo e ir pro chuveiro. Entre uma canção de Engenheiros do Hawaii e Beatles, começou um áudio de Cadu cantando e tocando "Better Together" de Jack Johnson no violão. Mari desligou o chuveiro e foi em direção ao celular pra mudar de faixa, mas não conseguiu. Fugiu o dia todo com sucesso, mas aquela voz? Ai, aquilo era covardia demais! Não teve jeito... Se rendeu completamente aos encantos de Carlos Eduardo (ela só o chamava assim quando estava com raiva).

Ouvir aquela voz depois de um dia ruim, ainda mais cantando essa canção, relaxava mais que chá de camomila e maracujá - seus sabores preferidos. Era como se todo o peso fosse embora em cada nota. Mari se secou, deitou na cama e levou o celular consigo. Pela primeira vez ela agradeceu pelo pacote de dados ter chegado ao fim. A lembrança foi tão forte que se tivesse como, ela abriria o messenger ou WhatsApp na mesma hora pra falar com Cadu. Como não podia, abriu o bloco de notas do smartphone e começou a escrever um tipo de carta virtual:

"12 de maio. É seu aniversário e também nome de uma canção do Silva que a gente adorava. Aliás, é difícil desassociar qualquer música de nós. A gente amava ouvir um bom som juntos. No trânsito, nas viagens, na hora de dormir, na hora de cozinhar... Falando em cozinhar, se eu fechar os olhos posso sentir o cheirinho do bife à parmegiana que você fazia. Era nosso prato de final de semana, lembra? Ninguém nunca vai ter um temperinho igual o seu! Aliás, nada será sequer parecido com suas características, com as nossas, com a do nosso jeitinho de amar.

Sinto saudade dos nossos dias de folga juntos, sabia? Nosso programa preferido era fazer maratona de algum seriado na Netflix e comer o clichê mais gostoso do mundo: pipoca, coca e brigadeiro. Quando tudo isso era somado a um dia frio então? Era o paraíso pra gente! Aí às vezes substituíamos o brigadeiro por um bom chocolate quente. 

Tava aqui lembrando do seu aniversário do ano passado. Eu fui a primeira pessoa a te dar parabéns, fazia questão de esperar meia noite grudadinha no celular. Aliás, foi assim os quatro anos que estivemos juntos. Lembro do primeiro aniversário que passei como sua namorada, quando preparei um bolo temático do Star Wars pra você. Não ficou tão bonito como provavelmente ficaria se tivesse sido encomendado de um profissional, mas fiz com tanto carinho que você amou. Você sempre disse que nunca tinha ganhado festa surpresa, então eu queria preparar tudo nos mínimos detalhes a próprio punho. A grana era curta, mas economizamos e fomos conhecer aquela hamburgueria gourmet nova na cidade. Aliás, a pouca grana nunca foi problema pra gente, né? Sempre nos divertíamos com pouco, o que bastava era a presença um do outro.

Hoje é o primeiro aniversário, depois desse tempo todo, que não passamos juntos. Eu queria poder te dar um abraço bem apertado e sentir esse perfume que é só seu. Queria dizer o quanto você é raro e especial - mesmo eu já dizendo isso quase todos os outros dias. Dói ficar longe, mas eu espero que você continue com esse seu mesmo sorriso de criança cheio de otimismo, e que você seja sempre mais feliz do que possa imaginar. Feliz aniversário, meu menino". 

Mari encerrou a carta com uma lagriminha presa nos olhos. Respirou fundo, fechou o bloco de anotações do celular e abraçou forte o travesseiro. Provavelmente ela nunca mandaria esse escrito pra Cadu, mas pelo menos aquele nó na garganta afrouxou um pouco. Agora ela já podia dormir mais tranquila, ou tentar. Aquelas lembranças ainda iam lhe fazer companhia por um bom tempo. Eu repito a indagação: Como a gente esquece o amor da vida?

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