As coisas que não te falei


Você pode ler ao som de A Noite - Tiê

Nunca ninguém me enxergou de verdade, sabe? Até tentaram, se teve uma coisa que eles tentaram foi isso, enxergar um pouco mais de mim em mim mesma. Teve gente que se afogou no meu oceano achando que eu era lagoa rasa, cê acredita? É que eu sou um livro aberto, entende? Comigo as coisas são fáceis e difíceis ao mesmo tempo, mas as pessoas não estão acostumadas a viver nesses dois extremos, e bem, nunca fui de uma única opinião. Você sabia disso, você sempre soube. Seja lá qual fosse a minha opinião cê soube entender perfeitamente. Como quem passa dias e noites acordado tentando entender aquela equação super chata de matemática que não entra na cabeça por nada nesse mundo. Foi assim que me senti quando te vi pela primeira vez, eu era a equação chata, e você o cara que me entenderia de uma vez por todas.

A verdade é que em todas as vezes que cê me contava da sua nova paquera, uma parte de me mim ficava muda. Eu sei que sempre disse que vocês formavam um casal lindo, mas aqui no fundo, eu via nós dois. Todas as vezes que teus relacionamentos davam errado e tu saia com o coração cheio de novos machucados, peguei minhas agulhas e meus trapinhos e te fiz um coração remendado. Sempre quis te dizer que se dependesse de mim, teu coração nunca mais precisaria de um retalho novo.

E sabe, eu também quebrei a cara. Milhões de vezes. Perdi as contas de quantas vezes te liguei no meio da tarde, chorando dizendo que não aguentava esse poço de decepção. Um poço sem fundo, falando sério. Tentava te dizer que a ânsia de ser feliz batia na minha porta todas as vezes que um termino nova acontecia, na esperança que tu entendesse que, pra mim, naquele momento a felicidade tinha o seu sorriso. Mas não vou mentir, sempre me contentei em chorar no teu ombro e te ouvir dizer que a felicidade tá logo ali, começa na ponta de um sorriso e termina nos olhos.

Nunca te falei que amava o jeito que tu tentava me impressionar decorando minhas músicas favoritas, nem comecei a escutar MPB porque tu gostava, alias, tô ouvindo Paralamas nesse exato momento. Não te disse tantas coisas pelo motivo mais óbvio do mundo: sempre tive esse medo de me apaixonar pelo meu melhor amigo, e cara, foi isso que aconteceu. Tive aquele medo bobo de colocar tudo em risco, de perder o pouco que tinha, sabendo que esse pouco era na verdade muito.

Cê lembra quando conheci sua mãe e ela disse que éramos mais que amigos e você rebateu com "ela é a irmã que não tenho, mãeeee"? Pois é, cê foi no banheiro e ela me disse que você era caidinho por mim e que estava escrito na minha testa que eu retribua o sentimento. Obvio que fiz cara de espanto, obvio que eu gostava de você e era obvio que cê nem percebia.

Tipo no aniversário daquele seu amigo que brincamos de verdade ou consequência, cê lembra? Cê pedia sempre consequência, beijou inúmeras bocas menos a minha. Eu, com raiva, pedia consequência pra me sentir melhor. Mas nunca me sentia.

Parece que todas as bocas só tinham gosto de boca, cê entende? Parecia só uma mistura de halls e saliva e eu sabia que a sua não era assim, mesmo sem nunca ter te beijado. E vamos combinar, demorou pra acontecer. Demorou pro nosso sim chegar, pra gente entender que não mandamos no nosso coração, que dele somos apenas inquilinos e ele que nos orienta em qual amor morar. Hoje, agradeço por fazer morada no teu coração. Por ter demorado tanto, por termos crescido, amadurecido e por termos descoberto que sim, melhores amigos se apaixonam e sim, ficam juntos. 

Na verdade, não descobrimos. No fundo a gente sempre soube, sempre soube.

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