Corações de cartolina me lembram Beatriz

Leia ouvindo Under The Bridge, do Red Hot Chili Peppers

Era um dia comum, como todas as outras quartas no escritório da Joanna’s, a marca de roupas e acessórios para qual trabalho. Cheguei às 8h – meia hora antes do expediente – porque demoro para acordar e querer interagir. Então, todos os dias passo na cafeteria de esquina e compro meu mocca e dois muffins, dou bom dia para a recepcionista que continua acreditando ficar mais bonita usando um blush gritantemente vermelho e chego cedo a minha sala, onde não serei perturbado enquanto termino meu café e respondo os intermináveis e-mails do setor de marketing.

Fones nos ouvidos, copo de mocca nas mãos, um sono intratável e a constatação de que hoje não ficaria sozinho de manhã. Maria Roberta, a moça de 20 anos estagiária de alguma coisa a qual não me lembro agora, estava cortando cartolina vermelha em formato de corações. Dei bom dia com uma dificuldade visível de quem não costuma interagir cedo e descobri que seria um dia diferente, seria o dia que evitei chegar desde janeiro, quando Beatriz bateu a porta do meu apartamento numa terça dizendo que nunca mais voltaria.

Sentei, abri os e-mails, dei de cara com alguns sobre amor e “compre o presente ideal em cinco vezes sem juros”. Engraçado como as pessoas conseguem transformar um sentimento em objeto de desejo. Digo isso porque sou publicitário e é o que eu mais faço. Mas não quer dizer, contudo, que ache isso certo. Pelo menos comecei a pensar assim depois daquela tarde de terça. Eu mudei muito desde então.

No almoço desci para o comer no meu restaurante favorito com mais dois colegas de setor e discutimos o quanto a Joanna’s poderia crescer com campanhas focadas em empoderamento e quebra de padrão. Quem sabe até produzindo peças unissex. Anotei no bloco de notas virtual do meu celular para não esquecer de sugerir isso por e-mail depois ao setor de criação. Dei uma olhada no feed do Instagram e, como era de se esperar, milhares de fotos sobre o dia dos namorados. 

Fim de expediente. Desci até o bicicletário e peguei a minha velha bike amarela. Daquelas bem hipster com adesivo de “respeite: um carro a menos”. Morava a quatro quadras do trabalho e achava um desperdício ir de carro. Na realidade nem tenho carro, usava o da Bia quando ela passava a semana lá em casa. Bia é blogueira e trabalha home office, então quase não usava o dela.

“Oi Godofredo”. Meu gato já estava miando em frente ao potinho quando cheguei. Coloquei um punhado de ração e troquei a água. Liguei o notebook para ouvir música, um rockzinho dos anos 90. Joguei a mochila no sofá, um dos poucos móveis que tenho no apartamento. Isso e uma mesinha azul que Beatriz me deu de aniversário e até hoje não entendi porque ela fez isso. Em cima dela alguns cd’s, livros que nunca li e a mancha de copo que jamais consegui remover dali. 

Enquanto ouvia música e o vapor do chuveiro tomava conta de tudo, uma onda de saudade invadiu meu peito, meu corpo todo. Lembrei do nosso último banho. Das tardes de sábado assistindo filmes antigos – um vício só nosso -  e de como Godofredo ficava animado quando Bia vinha passar a semana em casa e ele sabia que ganharia petiscos extras toda vez que pedisse a ela. Me veio à cabeça tudo, e uma vontade imensa de chorar.

Mas aí percebi que datas comemorativas fazem isso com a gente. Quem nunca ficou mal em pleno Natal? Não seria diferente hoje, com aqueles corações todos espalhados pelas vitrines como avisos. “Ei Lucas, hoje você deveria ainda estar namorando Beatriz”. A verdade é que desde janeiro, desde aquela porta batida, desde a constatação de que Bia não estava feliz ao meu lado a muito tempo, eu venho vivendo uma espécie de transformação interior. Sempre achei que casaria com ela, e apenas com ela seria bom lutar pelos sonhos. Mas aí percebi que se Bia saiu da minha vida e nem se deu ao trabalho de levar junto aquela maldita mesa azul da sala, porque eu deixaria que ela levasse junto o que ainda me restava?

Saí do banho ainda pingando, me enxuguei e vesti uma roupa confortável, daquelas que usamos para ir comprar pão. Mas não fui. No notebook a playlist mudou para alguma coisa com Rihanna. Tudo bem, deixei tocar e peguei um vinho tinto que guardei para ocasiões especiais. Hoje era uma delas, afinal. Sentei na sala, longe da mesa com livros que não li, no chão. Bebi a taça toda devagar e me deixei chorar até não restar mais nada. Até o choro virar um sorriso. E então sorri como não fazia há meses. Levantei e abri a porta. Não tinha ninguém me esperando. Abri a porta e disse “tchau” para a porta do vizinho – que me acharia maluco nesse momento. 

Fechei-a devagar, como quem espera a visita pegar o elevador e senti que Beatriz tinha ido, mas deixou o melhor naquele apartamento: deixou a mim. E era com isso que eu ia me virar, que eu ia sobreviver, que eu ia passar todos os outros dia dos namorados. Comigo, até eu encontrar alguém que goste de gatos. Até eu me encontrar ao ponto de nunca mais precisar de outros corações. Fiz morada em mim como Godofredo faz em meu colo quando deito para dormir. E desde então, nunca fui tão feliz.

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LEIA TAMBÉM A VERSÃO DA BEATRIZ 

Esse post faz parte da nossa Semana especial para o Dia dos Namorados. Leia todos aqui

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