Am(d)or


"Acabou porque tinha que acabar", é isso que digo quando me perguntam o porquê do "casal 20" ter dado fim ao relacionamento. Eu não me apaixonei por outros olhos cor de mel - os seus continuam sendo os meus favoritos - e sei que você não havia se enjoado da minha macarronada. Mas acabou, num domingo ensolarado enquanto brindávamos o tempo que passamos juntos. 

Percebi sozinha que não somos entendedores do assunto, e como todo mundo que um dia já amou, aprendi o que é essa "tal dor de amar". É que na semana passada doeu preparar a macarronada e lembrar que você poderia estar ali, bebericando o vinho direto da garrafa. Sei que te cobrava bons modos, que te olhava pelos cantos dos olhos e te fazia aquela minha cara de brava que você adorava. Você sabia que eu não estava brava e continuava a beber me olhando com esses olhos quentes que me aqueciam no inverno e me derretiam no verão. 

Sei que doeu em você quando não atendi o telefone, quando exclui tuas mensagens da secretaria eletrônica ou quando tu resolveu aparecer ao meu café favorito e por questão de costume, pediu dois cafés italianos, mesmo estando só. Veja bem, só estava tentando apaziguar essa dor que chega de repente, tipo aquelas tias que moram distantes. E assim como essas tias, essa dor demora pra ir embora. 

A gente se acostuma a ser plural e depois demoramos tanto pra sermos singular, né? Nosso amor foi colado em papel e eu sempre soube que na hora em que eu tentasse puxar, ele iria rasgar. Sempre soube que quando algo saísse fora da linha, nada seria capaz de consertar e seria necessário virar a página e esquecer da cola que me prendia a outra. Foi necessário te esquecer. 

Acredite em mim, depois que saiu porta a fora, choveu - e está chovendo aqui dentro desde então. Sei também que não choverá para sempre, amanhã ou depois o sol vai abrir, e assim contemplarei os dias floridos, da mesma forma que contemplávamos, só que dessa vez verei sozinha e sem medo algum de ser só. 

A dor de amar não foi originada por traição, nem por brigas (por mais que brigávamos constantemente). O café antes forte demais ficou fraco, o fogo na lareira apagou e foi ficando difícil acender a chama novamente. Caímos na rotina e fizemos dela uma ponte para tantos "sei lá" ou "faça o que quiser". Tudo foi real e a mania inquieta de ser o tudo um do outro só faz a dor não aquietar. 

Eu sei, finais são doidos e doídos. Dói arrumar as malas e ver o amor que jurava sentir, abrir a porta e sair cabisbaixo, te olhando com uma cara não muito boa. E você sabe que ele não vai voltar. Como tantas outras coisas, ele veio, bagunçou, agitou, fez festa e arrumou a bagunça. Ficou quente, morno e por fim, ficou frio. Tão frio que não sentiu-se covarde de ir embora, sozinho. 

Mas ele se foi, e espero que com ele, a dor de amar tenha decência e faça o mesmo. 

Vá embora, sem avisar.

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