Sobre carros antigos e saudades mal resolvidas

Leia esse texto ao som de Veja bem, meu bem Los Hermanos

Hoje eu entendi porque você se foi. Logo agora que desencanei, que parei de procurar respostas, elas vieram. Sabe quando você pede algo pela internet e demora tanto a chegar que você até esquece o motivo de ter pedido aquilo? Pois é. Hoje essa encomenda bateu na minha porta, envolvida em um embrulho envelhecido e não tão atrativo assim. Mas chegou. 

Já faz cinco anos daquela despedida mal feita no carro. Você foi me deixar em casa, no seu Chevette e parou um pouco antes. Estacionou naquela esquina. Eu mal podia imaginar que nossa história também estacionaria ali. Nós sempre passeávamos pela cidade com ele, e chamava a atenção de todo mundo que amava carros antigos. Tenho ótimas lembranças da gente ouvindo Los Hermanos empolgados no caminho, e sempre esperando acabar a música mesmo quando já tínhamos chegado no destino. A gente se dava tão bem, lembra? Opa. Olha eu aqui novamente fazendo perguntas. Que mania chata de jornalista, né? 

 Pois é. Falando nisso, eu já formei e soube por aí que agora você já pegou seu diploma também e é um historiador. Caso você leia esse texto um dia: parabéns. Parabéns também pela banda que você formou com seus primos, eu sempre te incentivei a fazer isso e me permito ser um pedacinho dessa conquista. Lembro quando convenci uma amiga a irmos num pub que você ia tocar só pra ver de longe você fazendo aquele solo de baixo.  

Agora eu já estou em um relacionamento estável, mas ao mesmo tempo cheio de frio na barriga. Nunca me senti tão bem em uma relação como atualmente. Acho que encontrei o tal amor da minha vida, e peço desculpas pelas vezes que dei esse título a você sem sequer ter sua permissão pra isso. 

Como disse, eu já peguei meu diploma e ah, já fui no meu primeiro festival de música e no segundo, sobrevivi a um relacionamento abusivo, passei por empregos que nunca imaginei (como vender biscoitos no shopping). Já fiz um bocado de coisa, já sou mais mulher, pago meus boletos e sei aguentar algumas barras sozinha. Mas não vou me iludir, ainda sou meio menina e continuo chorando em filmes bobos desde o trailer. 

Mas poucas vezes eu chorei na vida como naquela noite, naquela despedida, naquele Chevette que até então só tinha me trazido euforia. Eu te abracei sem entender nada e te pedi pra ficar. Te abracei forte, e vi você desabar pela primeira vez e chorar feito menino. Mas ainda assim você decidiu ir. Continuei sem entender nada esses anos todos. 

Era horrível ouvir qualquer "ronco" de carro antigo e correr pra esquina achando que era você. Que você estava vindo até mim pra dizer que foi um erro qualquer. Eu procurei um motivo sequer pra você ter feito aquilo, e nem com todas minhas paranoias e imaginação fértil, eu consegui achar. E isso me perseguiu por todos esses anos.  

Mas agora (finalmente!) eu sei que você se foi porque não soube lidar com o tamanho do meu amor. Ele era tão grande que você se perdeu nele. Você não estava preparado pra tanto. Éramos ótimos juntos, mas não o suficiente pra você imaginar um "pra sempre". Pra você se comprometer a retribuir da sua forma, ou pelo menos tentar. Meu amor era "demais" pra você. Você não estava acostumado a receber cartas de amor em dias inesperados, e nem eu estava acostumada a esconder ou amenizar meus sentimentos pra parecer mais "leve". Nunca tive medo de demonstrar, mas você teve. Teve ao ponto de fugir. 

Eu pensei em todas as possibilidades. T o d a s ! Tentei até culpar teu signo de aquário, e teu espírito livre e desapegado. Mas do que adianta eu usar essa desculpa? Você se foi porque não quis ser amado por mim. Você quis pegar teu Chevette e percorrer o mundo sem me ver no banco do passageiro. Sem fazer carinho nas minhas pernas, sem ver meu cabelo se bagunçando todo no vento, apesar do meu medinho de velocidade. Foi uma escolha sua. E eu te agradeço por ela. Não pela forma que aconteceu, teria me poupado uma porção de lágrimas se você tivesse sido mais honesto. Mas eu sei que meu jeito menina dificultou as coisas pra você. Sei que me ver chorando ali, te acovardou, te quebrou as pernas e você não conseguiu. 

Relaxa. Agora tá tudo bem. Só ficaram as lembranças boas dos shows que fomos, das risadas, dos carinhos, do dia atípico que nos conhecemos, da nossa harmonia. Tá tudo bem, de verdade. Obrigada por seguir seu caminho e espero que ele seja muito bonito como seus cabelos cacheadinhos que um dia foram o alvo do meu cafuné. Desejo um caminho cheio de cachoeiras, reggae e sorrisos.  

E eu continuo com o meu sorriso bobo aqui, que um dia te fez sorrir também.

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4 comentários

  1. Que mulherão da porra! Eu fico sempre impressionado com tanta força e sutileza <3

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    1. Eu amo tanto esse elogio seu que tenho vontade de colocar num quadrinho pra ler sempre que os dias estiverem ruins. Obrigada, Bruninho! Tu é incrível

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  2. Amo tanto esse texto que até dói. ❤

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    1. Eu amo você e a sua forma de sempre me incentivar e me encorajar. Obrigada por tudo!

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